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“É muito importante que as estratégias de cibersegurança estejam alinhadas com os objetivos do negócio”

Em entrevista à IT Security, Nuno Branco, CISO da Volkswagen Autoeuropa, analisa a realidade atual da cibersegurança nas organizações e a importância da cibersegurança na Indústria 4.0

Por Rui Damião . 06/02/2025

“É muito importante que as estratégias de cibersegurança estejam alinhadas com os objetivos do negócio”

Quais são as tendências de cibersegurança que vê neste momento no mercado?

Vejo como principais tendências e forte crescimento a utilização de soluções de inteligência artificial, de threat intelligence e a utilização de serviços externos especializados, são três áreas que serão cada vez mais utilizadas e que vêm contribuir para dar suporte às equipas de cibersegurança nos desafios que são colocados diariamente, nomeadamente em atividades como a análise de eventos, análise de logs, análise comportamental, deteção e resposta a ciberataques em tempo real e que contribuem também com propostas e soluções de mitigação de ameaças e resolução de incidentes. Contribuindo para acelerar a análise de uma grande quantidade de dados, deteção e resposta a diversos tipos de eventos e incidentes e contribuindo para suportar os analistas na tomada de decisão, libertá-los para outras tarefas e reduzir o risco de erro humano.

Referiu a inteligência artificial. Qual é o papel da inteligência artificial no fortalecimento da cibersegurança das organizações?

Como mencionei anteriormente, a inteligência artificial vem reforçar as equipas com mais poder de processamento e rapidez de análise e resposta aos vários processos inerentes às tarefas da equipa de cibersegurança. Sejam eles os mais complexos como a deteção e bloqueio de ameaças, ou os mais rotineiros, como a abertura de tickets ou análises estatísticas.

Estas capacidades tornam as ferramentas de IA cada vez mais utilizadas e mesmo indispensáveis para a cibersegurança moderna, com forte impacto no suporte às equipas de cibersegurança, ajudando assim a proteger as organizações de ameaças cada vez mais sofisticadas.

Por vezes, a cibersegurança é vista como a área que diz ‘não’ a tudo. Como é que se alinham as estratégias de cibersegurança com os objetivos de negócio das organizações?

É muito importante que as estratégias de cibersegurança estejam alinhadas com os objetivos do negócio. Porque só assim se consegue proteger as organizações de forma eficiente, contribuindo também para impulsionar o seu sucesso e crescimento. As equipas de cibersegurança não podem trabalhar de forma isolada dentro das organizações.

A cibersegurança não deve ser um inibidor do desenvolvimento da empresa, ou um bloqueador da introdução de novas tecnologias nas áreas de negócio – como, por exemplo, a utilização da inteligência artificial –, mas deve, sim, dar suporte a esses desenvolvimentos, contribuindo para que sejam implementados de uma forma correta, segura e cumprindo com as normas internas e externas.


“O CISO tem de ser capaz de passar essa mensagem e ser persuasivo na defesa e proteção da organização. Não se deixem desmotivar com os desafios constantes da cibersegurança, e sintam-se orgulhosos e motivados pela função de responsabilidade que a função de CISO exige”


A indústria utiliza cada vez mais sensores para monitorizar os mais variados equipamentos, com muitos desses sensores a estarem ligados à Internet e a serem uma possível porta de entrada para um ataque. Perguntava-lhe, primeiro, como é que se podem proteger estes pontos, e, também, qual é o papel que a cibersegurança desempenha na Indústria 4.0?

Respondendo à primeira parte da pergunta, para proteger esses dispositivos que passam a estar ligados em rede e acessíveis através da internet, destacava três processos aos quais é necessário dar prioridade e gerir de forma mais cuidada. Primeiro, o processo de gestão de vulnerabilidades de forma a instalar de forma célere os patchs de segurança, garantindo assim que estão atualizados com o último nível de patch e eliminando vulnerabilidades conhecidas. Segundo, implementar uma política de segregação de redes de forma a isolar esses equipamentos e aplicar regras de firewall de forma criteriosa e cuidada. Terceiro, mas não menos importante, implementar criptografia para que os dados transmitidos pelos sensores estejam protegidos contra intercetações e acessos não autorizados.

Estas, e outras práticas no domínio da cibersegurança, implementadas e geridas de forma correta e cuidada contribuem para criar uma abordagem robusta e proativa para a segurança das redes industriais, protegendo-as contra ciberameaças e garantindo a continuidade das operações.

Em relação ao papel que a cibersegurança desempenha na Indústria 4.0, considero que a cibersegurança tem um papel fundamental, garantindo que a introdução de novas tecnologias nos processos produtivos, o aumento da automação e interconetividade sejam implementadas de forma segura, cumprindo com os regulamentos e standards.

Tendo em conta que estamos a falar de um crescimento do número de sensores por equipamentos, é possível fazer uma gestão de vulnerabilidades desses sensores num curto espaço de tempo?

É uma questão pertinente, pois esse crescimento é mais um desafio em termos de gestão para as equipas de tecnologias de informação e cibersegurança. O aumento do número de sensores e a sua conectividade expõe em termos de infraestrutura uma maior superfície de ataque e ameaças. Como os recursos são limitados, torna-se essencial fazer uma análise mais detalhada e priorizar com mais cuidado a mitigação dessas vulnerabilidades, aplicando esses recursos na mitigação das vulnerabilidades onde faça mais sentido em termos de criticidade para o processo produtivo e do CVSS [Common Vulnerability Scoring System]. Desta forma, a minha resposta é sim, é possível gerir as vulnerabilidades críticas nesses equipamentos dentro de um espaço de tempo aceitável.

Como se ultrapassa o desafio da falta de recursos humanos especializados em cibersegurança?

Existem várias estratégias para ultrapassar esse desafio. As que proponho e considero mais eficientes para colmatar a falta de recursos especializados na área da cibersegurança são a utilização de recursos humanos internos à organização, que tenham formação, conhecimento, interesse e motivação para trabalhar na área da cibersegurança e proporcionar-lhe formação específica, dando-lhes também a oportunidade de crescer e evoluir; é também muito importante criar protocolos e sinergias com as instituições educativas para projetos de estágio que contribuam para a aprendizagem do aluno, mas também para desenvolver atividades com valor para a organização; outra solução é contratar serviços externos a empresas especializadas na área da cibersegurança em domínios ou tecnologias em que não tenhamos recursos especializados, ou que os mesmos não sejam suficientes.

Falando de ciberameaças, quais é que são as ameaças que vê mais a crescer para as organizações, principalmente as portuguesas?

As ameaças que vejo a crescer mais e que continuam a ter um grande impacto nas organizações são os ataques de ransomware; as técnicas de phishing e de social engineering, estão cada vez mais elaboradas e mais difíceis de detetar – observo essa tendência e vai aumentar no futuro – e continuam a ser uma ameaça e a ter um forte impacto nos serviços de cibersegurança; os ataques às cadeias de fornecimento, essas ameaças são cada vez mais frequentes, causando impacto nos serviços e negócios das organizações.

Qual é o conselho que deixa para outros CISO ou para quem tem a responsabilidade de cibersegurança numa organização?

Da minha experiência – e para quem está a pensar iniciar uma carreira na área da cibersegurança ou recentemente abraçou o desafio de ser responsável pela cibersegurança de uma organização, ou CISO – é muito importante que sinta a vocação para os temas de cibersegurança e esteja motivado para trabalhar em equipa com todos os principais elementos da organização. Os desafios são constantes e diariamente nos deparamos com situações novas que temos de ajudar a resolver. A monotonia nesta área não existe. Temos de estar em constante desenvolvimento e aprendizagem para conseguirmos acompanhar as novas técnicas utilizadas em ciberataques e novos tipos de ameaças, é muito importante acompanhar e entender que novas soluções de mercado vão aparecendo e como as mesmas podem ser implementadas e utilizadas dentro da organização para a tornar mais robusta e resiliente a eventos de cibersegurança.

Um outro domínio que é muito importante para os CISO, é a comunicação; utilizem uma comunicação eficaz, tanto para a direção com para os restantes stakeholders, porque é necessário fazer entender a quem não vive o dia a dia da cibersegurança, que para manter uma organização segura, é realizado pelas equipas de cibersegurança e tecnologias de informação um trabalho muito importante, para garantir que todos os processos e ferramentas de cibersegurança estão implementados e são geridos de forma eficaz e que os sistemas estão atualizados e os dados protegidos corretamente. A cibersegurança é uma responsabilidade de todos dentro da organização e esta mensagem tem de ser passada, fazemos todos parte de uma só equipa e só assim se consegue manter uma organização segura. Outro aspeto importante é o alinhamento das metas da cibersegurança com os objetivos do negócio, tendo em consideração o nível de exposição ao risco e ameaças no ambiente onde a organização está inserida.

O CISO tem de ser capaz de passar essa mensagem e ser persuasivo na defesa e proteção da organização. Não se deixem desmotivar com os desafios constantes da cibersegurança, e sintam-se orgulhosos e motivados pela função de responsabilidade que a função de CISO exige.


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